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Full text of "A sombra do quadrante"

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POR 


EUGÉNIO    DE    CASTRO 


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Digitized  by  the  Internet  Archive 

in  2010  with  funding  from 

University  of  Toronto 


http://www.archive.org/details/sombradoquadrantOOcast 


A    SOMBRA 
DO    QUADRANTE 


OBRAS  DE  EUGÉNIO  DE  CASTRO 


Crystallisações  da  Morte,  1 884. 

Canções  d  Abril,  1884. 

Jesus  de  Na^areth,  i8^S5. 

Per  timbram,  1887. 

Horas  tristes,  1888. 

Oaristos,  i.*  edição,  1890;  2.'  edição,  1900. 

Horas,  1891. 

Sylva,  1894. 

Inter  lunio ,  1894. 

Belkiss,  189}. 

Tiresias,  1893. 

Sagramor,  1895. 

Salomé  e  outros  poemas,  1S96. 

i4  Nereide  de  Harlem,  1896. 

O  /?et  Galaor,  1897. 

Saudades  do  Céo,  1899. 

Constança,  1900. 

Depois  da  Ceifa,  1901. 

Poesias  Escolhidas,  1902. 

O  melhor  retrato  de  João  dé  Deus,  1906. 


O  i4nMe/  £Íe  Polycrates,  poema  dramático. 
Belkiss,  2."  edição. 


A    SOMBRA 
DO     QUADRANTE 

POR 
EUGÉNIO    DE   CASTRO 

DA    ACADEMIA    REAL    DAS     SCIENCIAS 


COIMBRA 

F.    FRANÇA    AMADO,    EDITOR 

190G 


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NOV  2  i  19Ò7 


^'csta  edição  /e:;-sc  uma  tiragem  especial 
de  quatro  exemplares  em  papel  Whatman, 
mmierados  e  rubricados  pelo  aucíor. 


I 


D.    MIGUEL    DE    UNAMUNO 


. . .  tibi:  namque  tu  solcbas 
Meãs  esse  aliquid  putare  nugas. 

Catullo. 


I 


EPIGRAPHE 


JMwmurio  d' agua  na  clepsydra  gotejante. 
Lentas  gotas  de  som  no  relógio  da  torre, 
Fio  d'areia  na  ampulheta  vigilante, 
Leve  sombra  a\ulando  a  pedra  do  quadrante, 
Assim  se  escoa  a  hora,  assim  se  vive  e  morre. 


Homem,  que/a^es  tu  ?  Para  que  tanta  lida. 

Tão  doidas  ambições,  tanto  ódio  e  tanta  ameaça  ? 

Procuremos  somente  a  Belle\a,  que  a  vida 

E'  um  punhado  infantil  de  areia  resequida. 

Um  som  dagua  ou  de  bronze  e  uma  sombra  que  passa. 


INSCRIPCÃO 


A    LUIZ    DE    MAGALHÃES. 


Arqueado  sobre  a  límpida  corrente, 

Ria  um  fauno  da  própria  carantonha, 

Soprando  folgazão  em  verde  cálamo. 

Quando,  na  opposta  margem,  de  repente, 

Viu  a  figura  esbelta  mas  tristonha 

D'Enio,  que  abria  uma  inscripção  n'um  álamo. 


Poz-se  o  fauno  a  espreitar,  quedo  e  matreiro, 
E  assim  que  o  pastor  grave  se  afastou 


i6  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Como  um  espectro  na  bruma  vespertina, 
Galgou  d'um  salto  o  murmuro  ribeiro, 
E  alçando-se  nas  patas  soletrou 
No  prateado  tronco  esta  sextina  : 


«  Sequioso,  hoje,  ao  curvar-me  d*iins  barrancos y 

«  Para  beber  em  crystallina  fonte , 

«  Que  entre  agriões  canta  e  fulgura,  a  rir, 

<€  Vi  que  já  tenho  dois  cabellos  brancos  ! 

«  Assim,  longe  de  ti,  na  minha  fronte 

«  As  saudades  começam  a  florir, . .  » 


PASSEIO    NOCTURNO 


Levanta-te,  Psyché  !    Nem  um  só  astro  explende 

Na  abobada  tranquilla. . . 
São  horas  de  partir.    Toma  o  teu  manto,  e  accende 

A  lâmpada  d'argila. 


Vamos  correr  de  novo  os  saudosos  caminhos, 

Cemitérios  d'esp'ranças, 
Onde  passámos  rindo  a  colher  flor's  e  ninhos, 

Como  duas  creancas. . . 


l8  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Quero  voltar  á  fonte  onde  em  calmoso  dia 

Martha  nos  appar'ceu ; 
A  roseira  que  lá  com  mil  bocas  sorria, 

Já  de  certo  morreu. . . 


Quero  ao  cedro  voltar,  que  imperava  sombrio 
N'um  monte  áspero  e  bronco, 

A  ver  se  o  tempo  as  duas  letras  já  sumiu 
Que  eu  lhe  gravei  no  tronco. . . 


Sentar-me-ei  comtigo,  um  instante,  no  musgoso 

Cume  da  pedra  brava 
D' onde  vimos  mingoar  ao  longe  o  vulto  airoso 

D'Ignez  que  nos  deixava. . . 


Do  jardim  de  Leonor  quero  rever  as  dhalias, 

E  as  pervincas  na  balsa. . . 
Mas  que  fazes,  Psyché?    P'ra  que  atas  as  sandálias? 

Vem  mesmo  assim,  descalça ! 


A    SOMBRA   DO    QUADRANTE  19 

Temes  o  abrolho,  que  escondido  dilacera  ? 

Dos  cardos  a  rudez  ? 
'Stá  coberto  de  cinza  o  chão  que  nos  espera  : 

Não  maguarás  teus  pés. . . 


tristíssima 


i>  o  teu  perfil  d'anjo  mortificado 
Puira  sempre  uma  nuvem  de  tristeza, 
Que  bem  fundo  me  abala,  p'la  incerteza 
Pungente  e  viva,  de  eu  a  ter  causado. 


Talvez  teu  coração  desconsolado, 
Vendo  o  meu  tão  pobrinho  de  belleza, 
Sinta  a  dolorosissima  surpreza 
De  quem  desce  d'um  sonho  albirosado. 


2«  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Magoam-te,  meu  bem,  velhos  abrolhos  ? 
Tens  saudades  d'alguem  que  está  ausente  ? 
Ah !  permitta  o  Senhor,  ó  pura  e  doce, 


Que  essa  tristeza  venha  de  os  teus  olhos 
Terem  debalde  olhado,  longamente, 
A  estrada  pela  qual  o  Amor  me  trouxe  ! 


SAUDADES 


v^ada  uma  das  palavras  que  vaes  ler 
Com  olhos  de  divina  claridade, 
Leva-te,  meu  encanto,  uma  saudade 
Mais  triste  do  que  as  rolas  a  gemer. 


Poucas,  bem  poucas  são  as  que,  a  tremer, 
Aqui  te  escrevo,  ó  toda  suavidade, 
Mas  fossem  mil,  não  foram  nem  metade 
Das  saudades  que  enturvam  meu  viver. 


24  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Se,  arrancados,  meus  olhos  lacrimosos 
Podesscm  ver  os  teus,  ião  mysteriosos, 
Que  ao  vel-os  tudo  em  sonhos  se  converte, 


De  só  por  ti  chorarem  nunca  fartos, 
Arrancára-os  eu  já,  para  mandar-t'os, 
Feliz  de  me  achar  cego  para  ver-te  ! 


HORA    SUPREMA 


L/aría  de  bom  grado 
Trinta  ou  quarenta  dias  do  futuro, 

Se  o  podesse  fazer, 
Para,  moço  outra  vez,  do  meu  passado, 

Ingénuo,  crente  e  puro, 
Três  horas,  ires  somente,  reviver. 


26  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Na  primeira  das  três, 
Aquella  revivera,  azul,  celeste, 

Em  que,  rósea  de  pejo. 
Com  infantil,  quebrada  timidez, 

Suavíssima  me  deste. 
Sob  as  magnólias,  o  primeiro  beijo. 


Ao  chegar  da  segunda, 
Que  ponto  no  passado  evanescente 

Tomara  eu  por  mira  ? 
Sentindo  uma  emoção  doce  e  profunda, 

Extasiadamente, 
Da  primeira  as  doçuras  repetira. 


Cavamente  sonora. 
Soaria  a  terceira :  tudo  em  pó 

Se  desfaz,  de  fugida . . . 
E  eu  sempre  a  reviver  a  mesma  hora, 

Que,  sendo  uma  hora  só. 
Tem  sido,  é  e  será  toda  uma  vida  ! 


ROMPIMENTO 


IVlandas-me  as  prendas  que  te  dei  outrora ; 
Ahi  vão  aquellas  que  me  deste  um  dia. . . 
Seja  !  acabe-se  tudo. . .  e  que  a  alegria 
Doire  essa  gracil  cabecinha  loura. 


Ahi  vae  o  lenço  onde,  orvalhada  aurora, 
Choraste,  uma  manhã,  quando  eu  partia, 
E  a  mecha  de  cabellos,  luzidia, 
Dada  em  risonha,  inolvidável  hora. 


28  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Ahi  vão  as  rosas,  onde  a  tua  boca 
Poisaste,  affavel,  antes  que  m'as  desses, 
Certo  dia  em  que  eterno  amor  jurámos. . 


Nada  mais  tenho  teu  ;  é  finda  a  troca, 

Se  o  desejo  não  tens  (ah!  se  o  tivesses. . .  ) 

De  destrocar  os  beijos  que  trocámos. . . 


o    ERMITÃO 


A    MEU   IRMÃO 

LUIZ  DE   CASTRO  E  ALMEIDA. 


«  Joseph  de  Sá  Pereira,  Ermitão 
que  actualmente  f  sic )  era  da  Ca- 
pela da  Virgem  Nossa  Senhora  de 
Entre  Agoas.  » 


Certidão  d'obito. 

Csse  Joseph  de  Sá,  meu  quinto  avô, 
Fidalgo  altivo  e  caçador  de  fama, 
Cumprindo  o  que  Jurara  á  sua  Dama, 
Fez-se  humilde  ermitão  quando  enviuvou. 


Na  ermida,  entre  aguas,  relembrava  só 
A  que  dormia  em  funerária  cama  ; 
Na  memoria,  porém,  inquieta  e  em  chamma, 
O  rosto  d'ella  aos  poucos  se  apagou. . . 


3o  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Mas  a  Virgem,  sorrindo  com  deleite 
Ao  que  tão  bem,  tão  plácido,  a  servia, 
As  tardes,  quando  o  ermitão  cançado 


Ia  espertar  a  lâmpada  d'azeite, 

Co'as  feições  da  defunta  lhe  appar'cia, 

Como  ella  as  tinha  ao  tempo  do  noivado, 


A'  VOLTA  DA  FONTE 


A   JOÃO    DE    VILHENA. 


V  cita  da  fonte  a  donzellinha  airosa, 
Ao  musical  esmorecer  do  dia, 
Mas  volta  grave,  lenta  e  lastimosa. 
Com  a  urna  vasia. 


Seccou  a  fonte  !    Nem  um  leve  fio 
Cae  da  limosa  bica. . .    D'hoje  em  deante, 
Para  ter  agua,  terá  de  ir  ao  rio 
Que  fica  bem  distante. . . 


32  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Não  é  isso  porém  o  que  de  espinhos 
Veste  seu  peito  e  a  afoga  em  tristes  anciãs 
Os  seus  pés  são  ligeiros  passarinhos^ 
Sorriem  das  distancias... 


O  que  a  fere  e  lhe  augmenta  a  pallidez 
E'  que  o  seu  moço  e  esbelto  namorado 
Faltou  --  ai  d'ella  !  —  p'la  primeira  vez, 
Ao  encontro  ajustado. 


Vasia,  agora  a  urna  mais  lhe  pesa 
Do  que  nas  tardes  em  que  vinha  cheia ; 
Flores,  nem  uma  traz. . .    E'  a  Tristeza 
A  arrastar-se  p'la  areia. . . 


Chama- a  de  longe  o  rio  desejoso, 
Mas  ella  que  parou  não  sei  porquê, 
Sequiosa  a  boca  e  o  coração  sequioso. 
Nem  o  ouve  nem  vê. . . 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  33 

Detem-se  um  pouco  e  parte. . .    De  repente, 
Ouve  um  arroio  chilreando  :  taciturna, 
Sem  se  curvar,  prosegue,  indifferente, 
Sempre  vasia  a  urna. . . 


Nem  viv'alma  !    Silencio  atroz,  profundo. 
Parece  á  triste,  vendo-se  tão  só, 
Que  morreu  toda  a  gente  n'este  mundo, 
Que  só  ella  ficou. . . 


Para  a  sede  da  boca,  longe  ou  perto, 
Ha  sempre  agua,  nos  campos,  nas  cavernas ; 
Até  no  adusto,  no  infernal  deserto 
Ha  oásis  com  cisternas. 


Mas  para  a  sede  da  alma,  se  algum  dia 
Sécca  a  fonte  d'amor,  que  lh'o  concede. 
Não  ha  senão,  apoz  lenta  agonia. 
Senão  morrer  de  sede. . . 
3 


34  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Para  a  alma  que  extática  se  dobra 
Ante  a  fonte  escolhida  em  sitio  ameno, 
A  agua  d'outras  fontes  é  salobra, 
Quando  não  tem  veneno. . . 


o    JAZIGO 


A    ANTÓNIO    VIANNA. 


«  Assim  fazia  Santa  Ida  Du- 
queza  de  Saxonia,  que  mandando 
em  vida  lavrar  de  mármore  o  seu 
jazigo,  todos  os  dias  o  enchia  de 
diversas  coisas  de  comer,  e  vestir, 
e  as  distribuía  pelos  pobres.  » 

P.«  Manuel  Bernardes,  Exerci- 
dos Espirituaes. 


Diz  a  Princeza  loura,  surprehendida 

Pelos  olhares  de  seu  esposo,  agrestes  : 

—  «  Que  espanto,  o  vosso  I    Pois  náo  me  dissestes 

«  Que  era  uma  doida  e  dava  sem  medida  ? 


«  Este  jazigo  então  comprei,  rendida 
'<  Aos  severos  conselhos  que  me  destes, 
«I  E  n'elle  meço  o  pão,  dinheiro  e  vestes, 
«  Que  aos  tristes  dou  de  miserável  vida. 


36  A   SOMBRA   DO   QUADRANTE 

«  Alqueire  de  piedade,  e  caixa,  um  dia, 
«  De  cinzas  funeraes,  tangem  violas 
«  Em  torno  d'elle  seraphins  alados . . . 


«  Vossas  ordens  cumpri  como  devia  : 

«  Seja  medida  agora  das  esmolas 

«  O  que  breve  o  será  de  meus  peccados.  » 


OLHANDO    AS    NUVENS 


/ao  comparar,  Lucinda,  o  teu  novo  retrato 
Com  o  outro  que  me  deste  ha  um  mez,  indo-te  embora, 
Em  dúvidas  cruéis  me  perco  e  me  debato, 
Pois  ou  um  d'elles  mente,  ou  tu  és  outra  agora. 


Não  és  a  mesma,  não  !    O  teu  sorriso  tem 
A  mesma  graça ;  a  fronte  e  a  boca  voluptuosa, 
O  collo  e  as  finas  mãos  são  como  eram. . .  porém, 
Tens  a  mais  não  sei  quê,  falta-te  qualquer  cousa. 


38  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

O  que  é  que  te  mudou,  o  pesar  ou  a  doença  ? 
Seriam  da  saudade  as  frechadas  agudas  ? 
Como  foi  que  n'um  mez  fizeste  assim  diíFrença  ? 
Como  serás  d'aqui  a  um  anno,  se  assim  mudas  ? 


Ante  os  retratos,  flor,  meu  peito  mal  supporta, 
Cheio  de  confusão  a  mágua  que  o  trucida  : 
Aquelle  que  eu  já  tinha  é  um  retrato  de  morta, 
E  o  que  hoje  recebi,  d'uma  desconhecida  I 


Emquanto  assim  padeço,  ao  céo  os  olhos  ergo, 
Ao  céo,  lagoa  azul  onde  as  velas  são  asas. . . 
Vejo  as  nuvens  correndo...  e  nas  nuvens  enxergo, 
Inflammado  p'lo  sol,  um  castello  de  brasas. 


O  castello  rutila  em  faustoso  lampejo, 

Qual  torre  de  crystal  onde  dorme  um  thesoiro ; 

De  súbito,  porém,  sem  saber  como,  vejo 

O  castello  mudado  em  lucifero  toiro. 


A   SOMBRA    DO    QUADRANTE  3g 

Mas  no  dorso  do  toiro  uma  Deusa  se  deita, 
Sob  o  fardo  divino  eis  que  o  toiro  galopa, 
E  assim,  no  céo  aonde  a  lua  anciosa  espreita, 
Parece-me  ver  Zeus  arrebatando  Europa  ! 


Deusa  e  toiro  depois  transformam-se  em  navio, 
Buscar  o  Vello  d'Oiro  os  Argonautas  vão.. . 
Desfaz-se  a  nau  solemne,  e  em  nobre  desvario 
O  amante  de  Medêa  acutila  o  dragão  ! 


Mas  já  a  noite  desce. . .    E  a  nuvem  destroçada. 
Que  foi  castello  a  arder,  toiro,  mulher  divina. 
Nau,  heroe  e  dragão. . .  eil-a  emfim  desdoirada. 
Triste  e  sombria  como  um  fumo  d'ofFicina. . . 


D'este  espirito  enfermo  os  debates  damnados 
Param:  a  nuvem  alta  applacou-os,  desfez-m'os. . . 
—  Como  a  nuvem  do  céo,  morremos  aos  bocados, 
Como  a  nuvem  do  céo,  nunca  somos  os  mesmos. . 


40  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Viver,  agonisar. . .    Cada  instante  é  uma  cova  f 
Um  beijo  é  o  fallecer  gostoso  d'um  desejo. . . 
E  se  te  beijo  a  boca  aromática  e  nova, 
Não  sou  o  mesmo  já  que  te  pedira  um  beijo  ! 


Somos  um  para  o  outro,  amor,  qual  fugidia 
Sombra  d'ave  que  passa  em  crystallina  veia. . . 
Ai  de  ti  1  ai  de  mim  !    Um  olhar  é  uma  agonia, 
E  a  palavra  é  na  boca  o  estertor  d'uma  ideia ! 


Quantas  vezes  cerrei  os  olhos,  commovido, 
A  ouvir  a  tua  voz  de  prata  !  e  ao  despertar, 
Par'cia-me,  meu  bem,  que  me  tinhas  fugido, 
E  que  outra  se  sentara  ali,  no  teu  logar  ! 


Nunca  encontrei  nos  lábios  teus  o  mesmo  gosto, 
Fonte  onde  vão  beber  á  tarde  os  meus  revezes. . 
Mil  rostos  tenho  visto  em  teu  maguado  rosto, 
E  lábios  mil  beijei,  se  te  beijei  mil  vezes  I 


A   SOMBRA   DO    QUADRANTE  41 

Sou  O  mesmo  para  ti  I    Veloz,  o  tempo  flue, 
E  ai  quantos  homens  já  em  mim  agonisaram  I 
Afinal  o  que  sou  ?    A  campa  do  que  fui ! 
Mil  vezes  te  beijei  ?    Mil  homens  te  beijaram  ! 


Ai  de  mim  !  ai  de  ti,  pérola  !    Foi  traçado 

Que  os  nossos  corações,  mal  noivem,  logo  enviuvem 

E  ai  I  quanta,  quanta  vez  temos  enviuvado, 

O'  nuvem  para  quem  sou  também  uma  nuvem  ! 


O'  morta,  ó  viuva,  ó  noiva  !  ó  belleza  celeste, 
Belleza  que  só  és  na  inconstância  constante  ! 
Afagando-te  agora,  o  remorso  me  veste, 
Pois  julgo  atraiçoar  a  que  eras  ha  um  instante  I 


Não  mudes  mais,  por  Deus  !    Es  o  monte  de  neve 
Que  se  transforma  quando  o  sol  o  descongela  : 
Teu  mavioso  olhar  é  um  relâmpago  breve, 
E  eu  quizera  mudado  o  relâmpago  em  estrella  ! 


42  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Pára  I  não  mudes  mais  f    Só  tens  de  fixo  o  nome  I 
Lucinda,  ao  ver-te  assim  de  hora  em  hora  mudada, 
De  tal  modo  enlouqueço  e  a  febre  me  consome, 
Que  te  quizera  ver  ahi  petrificada  ! 


Invejemos,  Lucinda,  as  estatuas  que  a  Arte 
Ergueu,  n'um  repto  audaz  aos  ventos  do  porvir  ! 
Fora  eu  uma  estatua,  e  podesse  beijar-te ! 
Foras  tu  uma  estatua,  e  podesses  sorrir  I 


Se  fossemos  de  Jaspe  !    Eu,  Satyro  amoroso, 
E  tu,  Nympha  gentil,  nos  meus  braços  tremendo  ! 
Mas  o  que  peço  eu  ?    Delirio  doloroso  ! 
Resignemo'-nos,  flor,  continuemos  morrendo. . . 


Quando  a  Morte  aclarar  os  supremos  mysterios, 
Das  nossas  almas  vendo  o  lamentável  fundo, 
Encontraremos  lá  dois  grandes  cemitérios. 
Mais  vastos  que  o  maior  cemitério  do  mundo ; 


A   SOMBRA   DO    QUADRANTE  43 

Cemitérios  aonde,  em  grupos  esfumados, 
Pisando  um  trilho  só  de  saudades  florido, 
Os  mil  phantasmas  errarão,  desconsolados, 
Dos  mil  amantes  que  até  lá  teremos  sido  ! 


o    ELMO 


A   CARLOS    MALHEIRO    DIAS. 


O 


campo  que  ahi  ves,  theatro  d'uma  guerra 
Ha  muitos  annos  foi : 
Cada  passo  dos  teus  n'esta  fecunda  terra 
Mede  a  campa  d'um  heroe  ! 


Olha  a  seara  d'oiro,  olha  os  cachos  doirados 

Da  vinha  bella  e  forte  ! 
Campos  férteis  não  ha  como  os  que  são  lavrados 

P'la  charrua  da  Morte. . . 


46  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Onde  o  sangue  correu  e  a  traição  virulenta 

Rastejou  na  poeira, 
Arrulham  pombas  na  folhagem  da  cinzenta, 

Pacífica  oliveira . . . 


'Spelho  occulto  dos  sons,  o  echo  d'estes  montes 

Redisse  ais  e  estertores ; 
Mas  hoje  só  repete  o  chalrear  das  fontes 

E  o  clamar  dos  pastores. . . 


Aqui  foi  que,  ha  um  instante,  á  sombra  densa  e  grata 

D'alto  chorão  virente, 
Entre  hervas  e  calhaus,  um  elmo  achei  de  prata. 

Lavrado  finamente ; 


Elmo  estranho,  que  o  vento  ou  que  um  baldão  do  acaso 

De  negra  terra  enchera, 
E  onde,  como  em  bojudo  e  caprichoso  vaso, 

Pallida  flor  nascera. 


A    SOMBRA   DO    QUADRANTE  47 

Antigo  protector  da  fronte  nobre  e  ousada 

D'algum  moço  guerreiro, 
Sentiu-a  latejar,  doidamente  abrasada 

N'um  sonho  carniceiro : 


Protegendo-a,  sentiu  dentro  de  si  a  voz 

Da  crueldade  hirsuta, 
ímpetos  de  extermínio  e  de  vingança  atroz, 

Estos  de  fera  bruta  1 


Mas  o  heroe  baqueou  :  golpe  certo  e  profundo 

Prostrára-o  n'um  momento  ! 
E  o  elmo  ouviu  então  do  moço  moribundo 

O  ultimo  pensamento, 


Que  alçando-se  no  ar,  como  ave  luminosa 

Foi  para  longe  a  voar. 
Até  cair  aos  pés  d'uma  donzella  anciosa, 

Que  se  poz  a  chorar. 


48  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Sonhos  de  gloria  e  vós,  ódios  que  nos  tornaes 

A  vida  em  escuro  inferno, 
Sois  uma  cinza  vã,  sois  cinza  e  nada  mais  : 

Só  o  amor  é  eterno ! 


De  quanto  palpitou  no  elmo  refulgente 

Só  não  morreu  o  amor, 
Que  simples,  virginal,  balsâmico  e  innocente, 

Revive  n'esta  flor  í 


FLORES    SECCAS 


LJm  livro  que  é  um  herbario  !    Resequida?, 
Doce  aroma  suavíssimo  exhalando, 
Folhas  e  flor's  estão  assignalando 
As  passagens  do  texto  preferidas. 


N'estas  paginas,  horas  esquecidas, 
Que  de  sonhos  andámos  levantando  ! 
Mas  tu  morreste,  lírio  puro  e  brando, 
D'olhos  leaes  e  mãos  compadecidas  1 

4 


5o  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Este  feto  recorda-me  um  domingo, 
N'estas  avencas  teus  dedinhos  vejo, 
N'estas  algas,  do  mar  ouço  a  canção.. . 


Mas  se  olho  estes  jasmins,  já  não  distingo 
O  que  me  deste  com  o  primeiro  beijo, 
D'aquelle  que  tirei  do  teu  caixão  ! 


SOB  OS  OLHOS  DE  DEUS 


AOS  MEUS  AMIGOS 

CONDE  DE  ARNOSO 

E  CONDE  DE  SABUGOSA. 


rlsposos  de  irmãs,  irmãos  pela  amisade, 
Na  honra  e  brio  irmãos,  quiz  o  Senhor 
Irmanar-vos  ainda  n'uma  dor 
Maior  que  a  da  viuvez  e  a  da  orfandade. 


Um  perde  a  filha  em  plena  mocidade, 
Da  belleza  e  da  graça  em  pleno  alvor ; 
Perde  o  outro  um  filho,  exemplo  de  valor, 
Maravilha  fatal  da  nossa  idade ! 


52  A   SOMBRA  DO   (QUADRANTE 

Tristes  pães  sem  ventura,  que,  abraçados, 
Do  cemitério  percorreis  os  trilhos 
Todos  cheirosos  a  cypreste  e  a  goivos, 


Vossas  frontes  erguei  aos  céos  doirados. 

Onde  agora  talvez  os  vossos  filhos. 

Sob  os  olhos  de  Deus,  caminhem,  noivos  ! 


CREPÚSCULO 


AO    CONDE  DE  MONSARAZ. 


kJ  anjo  esbelto  que  o  sol  doirava  ainda  ha  um  instante 
Na  grimpa  airosa  e  audaz  da  caihedral  sombria, 
Anjo  de  ferro  agora,  immovel,  dominante, 
E'  o  anjo  da  Saudade  e  da  Melancholia. 


Tristes  como  quem  vae  caminho  do  desterro, 
E  silenciosas  como  a  própria  paciência, 
Ajoelhadas  aos  pés  d'aquelle  anjo  de  ferro, 
As  casas  fazem  seu  exame  de  consciência. . . 


54  A    SOMBRA    DO    QUADRANTE 

Ódios,  anciãs  d'amor,  revoltas  co'a  desdita, 
Glorias  feitas  em  pó,  sonhos  côr  das  estrellas, 
Quanto  os  seus  corações  palpitantes  agita 
Tudo  se  mostra  nos  seus  olhos,  as  janellas. 


Uma,  aberta,  vejo  eu  n'aquelle  prediosinho, 
Que  me  enche  de  amargura  e  commiseração : 
Ali  dentro  morreu  hontem  um  meu  visinho 
Que  deixou  a  mulher  e  três  filhos  sem  pão. 


Como  eu  calculo  o  quarto  I    As  mesas  atulhadas 
De  remédios ;  um  Ghristo ;  o  espelho  quedo,  absorto 
No  chão  pingos  de  cera  e  rosas  desfolhadas, 
E  a  um  canto,  n'um  cabide,  os  casacos  do  morto. 


E  pVa  além  d'esse  quarto  adivinho  uma  sala 
Onde  a  viuva  abraçada  aos  orphãos  somnolentos 
Finge  ouvir  semi-tonia  uma  velha  que  fala. 
Em  suspirosa  voz,  nos  seus  padecimentos. 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  55 

Adeante,  um  rez-do-chão.    Vê-se  pela  vidraça 
Uma  alcova  de  pobre,  arranjadinha  e  calma  : 
Lá  dentro  uma  mulher,  toda  brandura  e  graça, 
Despe,  beijando-a  muito,  a  fílha  da  sua  alma. 


A  menina  boceja,  ergue  os  braços  ao  ar. 
Treme  ao  ver-se  em  camisa,  e  a  boa  mãe  piedosa 
Junta-lhe  as  mãos  em  prece,  ensinando-a  a  resar, 
£  aninha-a  nos  lençoes. . .    Deus  a  faça  ditosa  ! 


N'aquelle  esmadrigado  e  negro  pardieiro 
Sabeis  quem  mora  ?    E'  a  mulher  de  Pedro  Sem 
Eil-a  á  janella  a  olhar,  a  olhar  no  nevoeiro. 
Pobre  I  que  tanto  teve,  e  agora  nada  tem  I 


E  o  que  ella  roga  a  Deus  que  faça  a  noite  espessa, 
Que  occulte  em  nuvem  densa  a  prateada  lua. 
Para  que  possa,  sem  que  alguém  a  reconheça, 
ir  postar-se  a  pedir  á  esquina  d'uma  rua  I 


56  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

A  seguir,  um  palácio.    Ao  rectângulo  ardente 
D'uma  sacada  surge  a  fronte  esmaecida 
D'alva  donzella  que  olha  a  rua  cegamente, 
Como  um  pobre  a  buscar  uma  moeda  perdida. 


Ai  da  moça  gentil  que  em  cruéis  agonias, 
Erguendo  os  olhos  só  para  os  fixar  no  céo, 
Inutilmente  aguarda  o  noivo  que  ha  três  dias 
Abalou  taciturno  e  não  mais  appar'ceu  I 


Passos  andados,  eis-me  a  fitar  com  tristeza 
A  silhueta  febril  d'um  homem  desgrenhado, 
Que  em  repetidas  contorsões  de  fera  presa 
Passa  e  torna  a  passar  n'um  estore  illuminado. 


Bem  sei,  bem  sei  quem  és,  trágico  passeante, 
Poeta  ingénuo  como  os  lirios  da  manhã ; 
Conheço  a  tua  dor  :  fugiu-te  a  loira  amante, 
O'  desgraçado  suicida  d'amanhã  ! 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  5y 

Em  lobrega  mansarda  alguém  chora  e  soluça  : 
Uma  esposa  infeliz,  em  conlorsões  de  dôr, 
Toda  se  estende  lá  de  cima  e  se  debruça, 
EspVando  o  marido  que  é  —  ai  d'ella  !  um  jogador  ! 


E  o  seu  chorar  tem  echo  !    Outro  vulto  franzino 
Chora  e  soluça  ali,  n'umas  aguas-furiadas  : 
Afflicta  mãe  aguarda  o  filho  libertino, 
Tremendo  de  o  saber  preso  ou  morto  ás  facadas. 


Mas  mais  triste  que  a  viuva  e  que  a  noiva  trahida, 
Que  o  amante  abandonado  e  a  receosa  mãe, 
E'  aquella  mulher  tão  nova  e  envelhecida, 
Que  olha  não  sabe  o  quê,  espera  não  sabe  quem. 


Bordadora  ou  rendeira  ( os  seus  dedos  de  flores 
Revelam  claramente  um  mister  delicado  ), 
Movendo  a  agulha  d'oiro  ou  os  bilros  faladores, 
E'  seu  triste  viver  o  de  um  rio  parado. 


58  A   SOMBRA   DO   QUADRANTE 

Moça,  mal  começou  seu  peito  a  arredondar-se 
Gomo  onda  de  jasmins  e  delicadas  rosas, 
Logo  um  sonho  d'amor  pegou  a  desenhar-se 
Na  sua  alma  infantil,  em  cor's  maravilhosas. 


A  par  iam  crescendo  em  belleza  e  alegria 
Seu  corpo  virginal  e  o  sonho  que  a  enlevava  : 
—  «  Será  hoje,  será  ?  »  cada  manhã  dizia, 
E  cada  noite  p'lo  outro  dia  suspirava. . . 


Mas  o  Amado  não  vinha,  e  o  tempo  ia  correndo 
Com  duros  pés  sobre  seu  peito  solitário ; 
E  ella  sempre  a  esperar,  sempre  a  esperar,  não  tendo 
Outros  amor's  senão  um  craveiro  e  um  canário. 


E  o  tempo  a  galopar  !    Seus  olhos  mal  enxutos 
Buscam  doidos,  em  vão,  outros  com  que  sonhou. . 
Pobre  arvore  gentil  de  aromáticos  frutos. 
Nascida  n'um  deserto  onde  ninguém  passou  ! 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  Sq 

Ninguém  a  viu,  ninguém  a  vê  !    Desgraça  immensa  ! 
Virgem  branca,  p'la  dor  que  a  opprime  é  uma  viuva, 
E  o  seu  sonho  d'amor  ante  aquella  indiíTrença 
Bruxolêa,  a  morrer,  como  uma  luz  á  chuva. . . 


Noiva,  com  que  ternura  honesta  e  chilreante. 
Do  marido  implorara  os  cândidos  desejos  ! 
Mãe,  como  ella  beijara  o  loiro  filho  !  e  amante. 
Que  embriagante  mel  não  teriam  seus  beijos  ! 


Porém,  ninguém  a  vê  !    Em  célere  carreira, 
Tomado  o  tempo  vae  de  infrene  desvario, 
E  hoje  a  triste,  ao  pentear  a  longa  cabelleira. 
Entre  os  cabellos  d'oiro  uns  dois  de  prata  viu  ! 


E'  noite.    Rompe  o  luar.    Da  gente  que  ali  passa 
Ninguém  a  vê,  tão  doce  e  pallida,  ninguém  ! 
E  ella,  collada  a  fronte  alvissima  á  vidraça. 
Olha  não  sabe  o  quê,  espera  não  sabe  quem, 


6o  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

E  no  meio  do  seu  angustioso  socego, 
Pede,  juntas  as  mãos,  um  sobresalto  forte, 
Venha  elle,  que  importa  ?  em  tropeções  de  cego, 
Pelo  braço  do  Amor  ou  pela  mão  da  Morte  I 


DIAMANTES  E  PÉROLAS 

Sobre  uma  passagem  do  Padre  Afanuel  Bernardes 
allusiva  á  morte  de  Philippe  II  de  Hespanha 


A  D.  JULIO  NOMBELA  Y  CAMPOS. 

v>/  soberbo  monarcha,  em  vasto  leito 
D'ebano  e  d'oiro,  jaz  agonisante  ; 
Seu  filho,  que  soluça,  traz  brilhante 
Roupa  de  seda  e  o  Tosão  d'Oiro  ao  peito. 


Os  cortesãos  de  conturbado  aspeito 
Ostentam  finas  drogas  do  Levante, 
E  no  annel  d'um  bispo  roçagante 
As  gemmas  fulgem  com  discreto  geito. 


62  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Mas  n'isto,  o  moribundo,  abrindo  os  olhos 
Cheios  de  estranho,  de  inspirado  brilho, 
Arreda  o  lençol  branco  e  transparente, 


Mostra  o  seio  coberto  de  piolhos, 

E  ao  filho  diz :  —  n  Vê  no  que  deram^  filho, 

«  Os  diamantes  e  as  pérolas  do  Oriente  !  » 


o    QUADRANTE 


i    orque  não  entras  tu  no  meu  jardim  um  instante  ? 

Nunca  vi  tarde  assim,  de  tanta  suavidade, 

E  na  minh'alma  chora  uma  sede  abrasante 

De  amar  com  singelesa  e  com  terna  humildade. 


Entra.    Não  tenhas  medo.    Hesitas  ?   Fui,  é  certo, 
Assomado,  violento  e  surdo  á  tua  dor. 
Quando  ás  pedras  lancei,  em  fatal  desacerto, 
A  íjmpulla  de  crystal  que  enchêramos  d'amor. 


64  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Mas  se  tão  duro  fui,  tu  que  tão  meiga  eras, 
Por  capricho  infantil,  vestiras-te  de  gelo, 
E  amando-me  co'a  força  invencivel  das  heras, 
Simulando  desdéns,  folgavas  em  escondel-o. 


Cubica  a  creancinha  uma  boneca  linda  : 
Dão-lh'a.  Que  amor  lhe  tem  !  Não  ha  fruto  nem  jóia 
Que  a  tentem  !    Dura  isto  um  dia,  e  um  dia  ainda. . . 
Mas  ao  terceiro,  emfim,  n'um  Ímpeto,  destroe-a  I 


Eu  e  tu,  loira  amiga,  essa  creança  fomos, 
Destruímos  nosso  amor,  malfadada  boneca  ! 
Fugindo  d'um  pomar  onde  eram  d'oiro  os  pomos, 
Rilhámos,  por  castigo,  urzes  d'uma  charneca  ! 


A  Ventura  passou,  modesta  e  com  socego, 
Junto  de  nós  que  não  a  vimos,  sob  os  freixos, 
Cegos,  tão  cegos  como  o  pobresinho  cego. 
Que  pisasse  dobrões,  julgando  pisar  seixos  ! 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  65 

Mas  tudo  isso  se  extingue  em  neblinas  distantes, 
E  o  bom  tempo  adoçou  as  mais  amargas  dores  : 
Perdoemo'-nos,  amor,  e  amigos  como  d'antes, 
Vamos  n'este  jardim  perder-nos  entre  as  flores  ! 


íris,  fuchsias,  jasmins,  o  cacto  e  a  clematite 
Porfiam  em  prender  os  teus  olhos  românticos, 
E  açucenas  ás  mil  dizem-nos,  Sulamite, 
Que  entoemos  de  novo  o  cântico  dos  cânticos  ! 


Mas  que  silencio  é  o  teu  ?    Não  viste  a  commoção 
Que  me  sacudiu  quando  ha  pouco  te  encontrei  ? 
Não  acreditarás  na  minha  contricção, 
Nem  me  perdoarás  como  eu  te  perdoei  ? 


Esse  silencio  é  orgulho  !    Uma  paixão  immensa 
Ateia-se  em  tua  alma  ardente  e  lastimosa  : 
Olham-me  os  olhos  teus  com  fingida  indiff  rença 
Mas  tua  mão  na  minha  estremece  nervosa  ! 
5 


66  A   SOMBRA   DO   QUADRANTE 

Beija-me  !   Assim,  assim. . .    Que  languido  alvoroço  ! 
Milagre  !    Oiço  florir  meus  tristes  desenganos  I 
Beija-me !    Aos  beijos  teus,  estranho-me,  remoço, 
Julgo  ter  outra  vez  os  meus  vinte  e  dois  annos  ! 


Choras  ?   De  novo  és  minha  ! . . .    Oriental  thesoiro 
Se  oíFrece  ao  rei  sem  throno,  enfermo  e  mendicante  f 
Socéga,  meu  amor ;  limpa  os  teus  olhos  d'oiro, 
Senta-te  aqui  um  pouco,  e  olha  aquelle  quadrante. 


Elle  te  ensinará,  meu  encanto,  a  verdade, 
Que  todo  o  orgulho  é  vão,  vãs  todas  as  querelas, 
Que  o  amor  deve  sempre  ir  p'la  mão  da  caridade, 
Que  as  horas  sombras  são,  e  a  vida  a  sombra  d'ellas . . .. 


Olha  o  quadrante  bem  :  d'um  cinzel  inspirado 
Finos  lavor's  expõe  na  tarja  que  o  circumda, 
Emquanto,  lenta,  sobre,  o  mármore  rosado 
Avança  a  sombra  azul  d'esta  hora  moribunda. 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  67 

Entre  fartos  lauréis,  entre  frutos  e  flores, 
N^essa  tarja  morrióes  e  escudos  acharás, 
O  alado  caduceo,  a  tibia  dos  pastores 
Da  Arcádia,  e  d'Eros  loiro  o  florido  carcaz. 


Aos  symbolos,  porém,  da  guerreira  loucura, 
Da  ambição,  da  poesia  e  do  amor,  sobranceira, 
Remate  singular  de  tão  bella  esculptura, 
No  quadrante  verás  também  uma  caveira  ! 


Guardadora  feroz  das  Horas,  que,  singellas, 
Mal  nascem  morrem  logo,  em  cândidos  delirios. 
Qual  madrasta  as  vigia,  a  ver  se  alguma  d'ellas 
Se  demora  a  apanhar  borboletas  ou  lirios. 


Não  sentes  um  ar  de  morte  a  envolver-nos,  querida? 
A  sombra  azul  prosegue  em  seu  andar  furtivo. . . 
Tenho  sede  de  amor,  tenho  fome  de  vida  ! 
Digam-me  os  beijos  teus  que  vives  e  que  vivo  ! 


68  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Passa  no  meu  cabello  as  tuas  mãos  radiosas, 
Chega  bem  para  mim  teu  corpo  e  tuas  vestes, 
Emquanto  além  na  sombra  agonisam  as  rosas, 
E  a  nossos  pés  se  alonga  a  sombra  dos  cyprestes  ! 


CARPE    DIEM 


1   orque  tão  tristes  e  fechados  vamos  ? 

Negro  crime  fazemos  ! 
E'  de  rosas  o  mar  onde  singramos, 

D'oiro  fino  estes  remos. . . 


O  Amor  leva  o  timão ;  a  Esp'rança  rema, 

Risonha  e  decidida. . . 
E  em  volta  cada  vaga  que  se  extrema 

E'  uma  sebe  florida. 


70  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Ri  O  sol,  canta  o  céo,  cantam  as  aguas 

E  canta  a  viração  ! 
E  nós  a  desfiar  contas  de  maguas 

Com  dedos  d'affliccão. . . 


Da  Alliança,  no  azul  scintilla  o  Arco, 
E  nós,  tristes,  no  meio 

D'esta  alegria,  somos  n'este  barco 
A  Saudade  e  o  Receio. . . 


Gosemos  !  Canta  e  ri !  O  tempo  foge, 
Meu  amor,  minha  irmã. . . 

Mas  se  é  tão  lindo  e  claro  o  dia  d'hoje, 
Que  importa  o  d'amanhã  ? 


Acaso  os  noivos,  diz',  tu  que  me  impelles 

No  futuro  a  pensar. 
Vão  de  luto  casar-se,  por  que  um  d'elles 

Do  outro  ha-de  enviuvar  ? 


A   SOMBRA    DO    QUADRANTE  71 

Por  mais  que  ahi  cogites  no  futuro, 

Muda  e  sombriamente, 
Não  lhe  abrandas  por  certo  o  gesto  duro. . . 

Saboreia  o  presente  ! 


Canta  e  ri,  meu  amor  !    E  que  eu  comtigo 

Cante  e  ria  também  ! 
Se  és  minha  amiga  e  eu  sou  tão  teu  amigo. 

Que  mais  queres,  meu  bem  ? 


Quando,  d'hoje  a  cem  annos  ou  duzentos. 

Branda  vida  aquecesse 
O  pó  que  então  serás,  brinco  dos  ventos, 

E  alguém  te  proposesse. 


Ao  dia  d'hoje  regressar,  a  troco 

De  pungente  agonia. 
Tudo  o  teu  espirito  enlevado  e  louco 

De  prompto  acceitaria  ! 


72  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Sim  !    Para  ao  dia  d'lioje  regressares, 

Tu  que  tão  triste  vaes, 
Soífrerias  supplicios  e  pesares, 

Sem  queixas  e  sem  ais ; 


Então  darias  d'esses  lindos  olhos 

A  vida,  a  claridade, 
E  andarias  descalça  em  chão  d'abrolhos 

Por  toda  a  Eternidade  ! 


HORTO    FLORIDO 


á\  terra,  para  dar  frutos  e  flores, 
Deve  ser  p'las  enxadas  revolvida  ; 
Assim,  pVa  a  alma  se  mostrar  florida 
Deve  cavada  ser  por  bastas  dores. 


Por  isso,  não  quiz  Deus,  ó  meus  amores. 
Que  o  vosso  olhar  me  illuminasse  a  vida. 
Sem  que  a  minh'alma  fosse  bem  ferida. 
Do  soffrimenio  pelos  cavadores. . . 


74  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Chegastes,  —  meu  campinho  era  lavrado. 
Vede  que  lindo  está,  e  com  que  viço 
Cresce  aquella  seara  de  desejos  ! 


Vede  aquelle  rosal,  que  é  um  noivado, 
E  as  abelhas  ouvi,  que  no  cortiço 
Andam  a  fabricar  o  mel  dos  beijos. . . 


os    MEUS    FILHOS 


A   MEUS    PAES. 


VIOLANTE   MARIA   LUIZA 

x\corda  cedo  como  os  passarinhos 
E  vem  logo  direita  á  minha  cama  ; 
Sacode-me  com  geito,  por  mim  chama 
E  abre-me  os  olhos  com  os  seus  dedinhos. 


Estremunhado,  zango-me.  —  «  Beijinhos, 

«  Não  quer  beijinhos  ?  »  com  voz  d'oiro  exclama 

Da  minha  ira  empallidece  a  chamma, 

E  acarinhando-a  pago  os  seus  carinhos. 


76  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Senhor  !    Que  amor  de  filha  tu  me  deste  I 
Dá-lhe  um  caminho  brando  e  sem  abrolhos, 
Dá-lhe  a  Virtude  por  amparo  e  guia ; 


E  destina  também,  ó  Pae  celeste, 

Que  a  mão  com  que  ella  agora  me  abre  os  olhos 

Seja  a  que  ha-de  fechar-m'os  algum  dia  ! 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  77 


n 

MARTI  M 


Nasceu  :  era  um  varão  !    Com  febre  anciosa, 
A  riscar  seu  futuro  eis  que  me  ponho  : 
Grandezas  a  grandezas  sobreponho, 
E  minh'alma  não  pára,  ambiciosa  ! 


Génio  insigne,  consciência  luminosa, 
Santo,  poeta,  heroe  !    Manso  e  risonho, 
Mal  enche  o  berço. . .  mas  como  eu  o  sonho 
Enche  de  luz  a  vida  tenebrosa  ! 


78  A   SOMBRA   DO    QUADAANTE 

Veiu  a  morte  e  levou-m'o  !    Altas  montanhas, 
Como  invejei  os  musgos  de  velludo 
Dos  vossos  cumes  solitários,  calmos  ! 


Titulos,  honras,  glorias  e  façanhas, 
Tudo  quanto  eu  sonhara,  coube  tudo 
N'um  caixãosinho  branco  de  dois  palmos  ! 


A    SOMBRA    DO    QUADRANTE  79 


III 

LUIZ 


Não  peço  para  mim  !    Foram  baldadas, 
Foram  vãs  minhas  súpplicas,  Senhor  ! 
Eu  que  um  throno  sonhei,  fiquei  pastor 
De  gado  triste  em  serras  escalvadas  ! 


Eu  que  cegara,  moço,  vendo  ateadas 
As  chammas  da  ambição,  de  astral  fulgor. 
Contemplo  agora,  em  frémitos  de  dor, 
Um  montão  só  de  cinzas  apagadas  ! 


8o  A    SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Não  me  queixo,  e  a  teus  pés  todo  me  humilho  I 
Mas  se  mereço  um  premio,  porque  esteja 
Tão  resignado  e  dócil  como  estou. 


Compensa  o  pae  humilde,  erguendo  o  filho  : 
Dá-lhe  o  que  me  negaste,  e  que  elle  seja 
Aquillo  que  eu  quiz  ser  e  que  não  sou  ! 


A  SOMBRA  DO  QUADRANTE         8l 


IV 

CONSTANÇA 


Dorme. . .    Sobre  o  tapete  eis  que  descança 
Dos  sapatinhos  d'ella  o  exiguo  par  : 
Lembram  as  conchas  que  o  bondoso  mar, 
Para  brinco  infantil,  ás  praias  lança. 


Maior  que  qualquer  d'elles,  se  balança 
Pallida  rosa  além,  filha  do  luar. .  . 
Tristes  estão  !  affeitos  só  a  andar. 
Gomo  que  este  repouso  agora  os  cança. 
6 


82  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Vendo-os,  sonho-a  crescida,  a  linda  flor  ! 
E  com  as  mãos  humildes  levantadas 
Supplíco  ao  Céo,  em  orações  singelas, 


Que  nos  caminhos  por  onde  ella  for 
Sempre  pura  e  gentil,  suas  passadas 
Fi(juem  no  chão  brilhando  como  estrellas. 


A  SOMBRA  DO  QUADRANTE         83 


MAFALDA  ERMELINDA 


Mais  uma  estrella  me  alumia  a  casa  ! 
Um  novo  rouxinol  canta  em  meu  ninho  I 
Vede  se  não  é  mesmo  um  passarinho, 
Se  uma  estrella  não  é  de  luz  que  abrasa  ! 


Que  lindo  o  seu  dormir,  com  geito  d'asa 
Sob  a  fronte  disposto  o  alvo  bracinho  ! 
Mas  por  vezes,  se  a  vejo,  se  a  acarinho, 
D*esta  alma  uma  dor  súbita  extravasa. 


84  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

E'  que,  se,  fiado  em  Deus,  estou  contando 
Para  os  meus  filhos  com  uma  vida  bella, 
Feita  de  dias  claros  e  serenos, 


Gomparando-a  aos  irmãos,  fico  pensando 
Que,  sendo  ella  a  mais  novinha,  é  ella 
O  filho  com  quem  hei-de  viver  menos. . . 


EPILOGO 


A    MINHA    MULHER. 


i\  cem  portas  bati  por  noite  agreste 
Em  que  o  vento  mugia  como  um  toiro, 
Antes  de  emfim  parar  á  porta  d'oiro 
A  cujo  limiar  me  appareceste. 


Nos  versos  que  ahi  ficam,  se  é  que  os  leste, 
Talvez  pVa  a  nossa  estima  aches  desdoiro, 
Sob  o  cypreste  vendo,  ou  sob  o  loiro. 
Tantas  amadas  de  perfil  celeste. 


86  A   SOMBRA   DO    QUADRANTE 

Mas  não  !    Ao  pé  de  ti,  sou  outro.    A  vida, 
Sôpro  de  bênçãos,  no  meu  horto  flue. . . 
E  aquelle  que  divaga  nas  alfombras 


D'esíe  livro,  lunática  avenida. 

Não  sou  eu,  é  a  sombra  do  que  eu  fui. 

Uma  sombra  saudosa  d'outras  sombras  I 


ÍNDICE 


PAG. 

Epigraphe i3 

Inscripção i5 

Passeio  nocturno 17 

Tristíssima 21 

Saudades 23 

Hora  suprema 25 

Rompimento 27 

O  Ermitão 29 

A'  volta  da  fome 3i 

O  jazigo 35 

Olhando  as  nuvens 37 


88  índice 

PAG. 

O  elmo 45 

Flores  sêccas      49 

Sob  os  olhos  de  Deus 5i 

Crepúsculo 53 

Diamantes  e  pérolas 61 

O  quadrante 63 

Carpe  diem 69 

Horto  florido 73 

Os  meus  filhos : 

I.  Violante  Maria  Luiza jS 

II.  Martim 77 

III.  Luiz 79 

IV.  Constança 81 

V.  Mafalda  Ermelinda 83 

Epilogo 85 


ACABOU  DE  SE  IMPRIMIR 
ESTE  LIVRO  AOS  QUINZE 
DIAS  DO  MEZ  DE  NOVEMBRO 
DE  MIL  NOVECENTOS  E  SEIS 
NA  TYPOGRAPHIA  DO  EDITOR 
FRANÇA  AMADO,  SITA  Á 
RUA  DE  FERREIRA  BORGES 
NA      CIDADE     DE     COIMBRA. 


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Castro,  Eugénio  de 

A  sombra  do  quadrante 


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